É uma briga de gerações ou paramos de investir no outro?

O que que podemos fazer para ter uma vida perto de pessoas com idades diferentes da nossa

Desde que a IA pegou força mesmo entre as “pessoas comuns”, me vi pegando dicas ótimas com o meu pai, de 75 anos. Tudo que ele via que poderia ser interessante pro meu trabalho de pesquisa e treinamento, ele mandava já meio mastigado e assim eu fui (e venho) incorporando um monte desses aprendizados na minha vida, junto com tudo que eu também vou descobrindo e mandando pra ele. Ele é, sim, fora da curva e se coloca aberto para as novidades das “novas gerações”, a ponto de trazer descobertas do campo da tecnologia pra filha millennial aqui.

Mas o curioso é que eu só tenho acesso a essa maleta tecnológica dele porque temos uma conversa viva no dia a dia. Essa conversa passa pelos cuidados com a minha avó de 94; por dicas de que frigideira comprar – ele queria uma antiaderente, eu o convenci a parar de comer teflon e encarar uma boa panela de inox; de vez em quando pego o celular dele pra fazer algum ajuste de configurações; e ele me dá uns toques de vida corporativa que acumulou por mais de 40 anos.

E assim a gente vai trocando altas descobertas, cada um do seu campo de visão, da sua bagagem e, na maior curtição, um vai abrindo o “mundinho” do outro pra novas perspectivas, pontos cegos e paradigmas que a bolha de cada um não deixa entrar tão fácil.

Isso fortalece muito o meu músculo relacional. Eu fico percebendo o enriquecimento mútuo que a gente deixa acontecer entre nós. E percebo isso até quando ele fala ou faz alguma coisa que dá aquela vontade de rejeitar, de virar o olho, de “mostrar pra ele que ele tá errado”. Ou quando ele me ouve e parece jogar tudo fora pra manter o que ele pensa, invalidando meu ponto. Essas partes são mais chatas, mas nós dois sabemos quando estamos sendo turrões com nossos pontos de vista e aí a nossa relação musculosa dá conta de lidar esses engasgos.

O ponto é que, na linha final dessa planilha, tem um saldo bem gordo para nós dois, que justifica todos os nossos investimentos um no outro, a paciência, a coragem de se colocar em xeque, a consideração, a confiança, a contestação do outro sem agressividade.

O legado comportamental desse relacionamento sempre me mostra que vale a pena usar esses recursos nas minhas outras relações. No geral, o lucro no fim da planilha sempre vem. E sempre cresce. Porque quanto mais a gente investe coragem, confiança, paciência, mente aberta, humildade, escuta, fala de qualidade e tudo o mais que sabemos compor um relacionamento saudável, mais esse lucro engorda e começa a não somente sustentar, como a multiplicar o resultado do investimento.

É assim com amigo, com cliente, com fornecedor, com líder, com liderado, com par, com família.

A treta que estamos assistindo nos tempos atuais, pra mim, é a seguinte: assim como dinheiro e músculo dão um trabalho do caramba para começar a ver resultado, relações boas dão a mesma trabalheira!

E é ainda pior, porque dinheiro e músculo cada um corre atrás do seu, mas relacionamentos envolvem aquilo para o qual temos tido cada vez menos paciência: a outra pessoa.

Essa crise intergeracional que estamos vendo nas empresas, nas famílias, nos círculos de convivência é inegável. Mas eu tenho a impressão de que é um sintoma novo de uma doença antiga: a rigidez com a nossa própria visão de mundo. Pode reparar: tão enfadonho quando uma pessoa mais velha tentando sustentar um jeito de viver que já não faz mais sentido hoje em dia é ver uma pessoa mais jovem perdendo a chance de aprender coisas de ouro e se lascar muito até, lá na frente, reconhecer o valor.

A rigidez dos 13, dos 30, dos 44 ou dos 75 é rigidez igual.

Tem muita coisa que precisa mudar sistemicamente e também tem muita coisa que a gente pode fazer, cada um consigo mesmo, pra ir mudando esse quadro áspero, de cores blocadas e pinceladas duras. É se acomodar um pouco na cadeira, abrir os ouvidos, baixar a guarda um pouquinho só, deixar vir uma curiosidade que seja, relaxar esse ombro tenso sempre pronto pra empurrar uma opinião contrária…

Assim a gente corre um pouco o risco de conhecer o que tem do outro lado do muro. Se for um monstro horroroso, a gente já sabe levantar e se retirar. Mas e se não for?

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Luiz
Luiz
27 dias atrás

Que interessante essa matéria que acabei de ler, até compartilhei no meu Facebook. Goias da sorte

umpassoantes.com.br
Responder para  Luiz
27 dias atrás

Que bom que gostou, Luiz! Obrigada por compartilhar!